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Diagrama de Borboleta: No Caminho da Circularidade

Atualizado: 22 de mar.

O Diagrama de Borboleta (Butterfly diagram), também chamado "Diagrama Sistémico", é uma poderosa ferramenta que nos ajuda a compreender a aplicação do modelo da Economia Circular na prática.


Numa única imagem, consegue-se ter uma visão holística dos principais pressupostos do modelo, as alterações propostas e as várias soluções que facilitam a transição.

Diagrama de Borboleta
Imagem 1: Diagrama de Borboleta (Reproduzida a partir do original desenvolvido pela Ellen MacArthur Foundation)

Este diagrama sistémico, que teve como inspiração o modelo dos autores do livro Cradle to Cradle (C2C), foi desenvolvido pela Ellen MacArthur Foundation, sendo apresentado como ferramenta para explicação do modelo, em vários dos relatórios, apresentações e outras atividades dinamizadas por esta entidade.


Princípios orientadores para a Transição Circular


Existem 3 princípios orientadores que devem ser considerados no processo de transição para a Economia Circular, que iremos explicar em maior detalhe neste artigo:


  1. “Preservar o capital natural”, promovendo uma utilização eficaz dos recursos finitos e equilibrando a utilização dos recursos renováveis (Imagem 1 – Topo).

  2. Potenciar a utilidade dos produtos, componentes e materiais, mantendo-os a circular na Economia até ao limite da capacidade (Imagem 1 – Meio).

  3. Desenvolver sistemas eficazes que minimizem o volume de resíduos que terminam em aterro e as externalidades negativas (Imagem 1 – Base).


1. “Preservar o capital natural”


No topo do diagrama de borboleta, conseguimos verificar que há uma separação entre as matérias-primas renováveis, designadas por nutrientes biológicos e os materiais finitos ou nutrientes técnicos.


Existem características muito claras que distinguem estes dois ciclos:

  • os nutrientes biológicos, para além de serem renováveis, têm a capacidade de se decomporem quando devolvidos à natureza (exemplos: madeira, papel, cortiça, algodão, etc.);

  • os nutrientes técnicos, para além de serem finitos, não se decompõem, razão pela qual o seu tempo de vida útil deve ser prolongando até ao limite da sua capacidade (exemplos: alumínio, ferro, plástico, etc.) (imagem 1).

Nutrientes biológicos e nutrientes técnicos no diagrama de borboleta
Imagem 2: "Preservar Capital Natural"
Naturalmente, este modelo só poderá ser efetivamente regenerador e restaurador, se a energia que alimenta todo o processo for uma energia “limpa”, vinda de fontes renováveis.

Adicionalmente, os processos e os produtos devem ser pensados e desenhados, de modo a agilizar e potenciar este modelo.


O design dos produtos deve ser repensado de forma a facilitar a separação de cada um dos seus componentes, para que estes possam ser encaminhados para o ciclo correto, devendo para este efeito ter um design modelar.


A escolha dos materiais é também são de elevada importância: os componentes tóxicos devem ser eliminados, de forma a garantir a segurança e eficácia dos processos e a proteger a saúde pública e o ambiente.


A digitalização dos processos é também relevante, na medida em que promove uma maior eficácia na utilização dos recursos e nas atividades desenvolvidas (imagem 2).


2. Potenciar a utilidade dos produtos, componentes e matérias-primas


Ao analisarmos os processos existentes entre a extração dos recursos e o comprador, podemos verificar que há uma separação entre os produtores de componentes e os produtores de produtos.


Esta separação promove uma uniformização dos componentes, o que facilita a sua continua reintrodução no sistema económico.

Ciclo produtivo do diagrama de borboleta
Imagem 3: Ciclo Produtivo

Outra questão a ser destacada é que em vez de comercializadores de produtos, temos prestadores de serviços, pois este modelo defende que devem ser favorecidos modelos de negócio que otimizem a utilização dos recursos.


Assim, as características como qualidade, design modelar, durabilidade, fácil reparação, adaptabilidade e circularidade são uma vantagem competitiva, por exemplo, os modelos do “Produto enquanto Serviço” e a “Economia de Partilha”, que abordámos em maior detalhe no nosso e-book.


Há ainda uma distinção entre consumidor e utilizador, pois como o nome indica, os nutrientes biológicos são consumidos (exemplos: bens alimentares, roupas de tecidos de origem natural, papel, etc.) e os nutrientes técnicos são utilizados, podendo esta utilização ser partilhada (exemplos: ferramentas, bicicletas, eletrodomésticos, etc.) (imagem 3).

Nutrientes técnicos do diagrama de borboleta
Imagem 4: "Ciclo dos Nutrientes Técnicos"

Como referido no ciclo dos nutrientes técnicos, propõem-se alternativas que têm como objetivo restaurar os stocks de recursos finitos. Neste sentido, existe um conjunto de soluções que permitem prologar o ciclo de vida dos produtos e componentes.


Numa primeira instância, devem ser facilitadas alternativas que permitam a manutenção e a reparação dos produtos, de modo a prologar o seu tempo de vida útil.


Devem também ser favorecidas as soluções que promovam a utilização dos recursos de forma partilhada, potenciando a sua utilidade.

  1. Quando um utilizador já não pretende um determinado produto, devem então existirem canais que permitam a recolha, manutenção e redistribuição do mesmo.

  2. Quando um produto se torna obsoleto, ou já não seja passível de reparação, este deve ser encaminhado de modo a ser desconstruído e os seus componentes aproveitados para a produção de novos produtos.

  3. Quando nenhuma destas soluções é viável, então os recursos devem ser encaminhados para os processos de reciclagem adequados (imagem 4).

Nutrientes biológicos do diagrama de borboleta
Imagem 5: "Ciclo dos Nutrientes Biológicos"

Do lado dos nutrientes biológicos, a solução mais próxima do consumidor é a reutilização em cascata, onde os recursos vão sendo reaproveitados ciclicamente para diversos fins, consoante a sua aplicabilidade.


Esta alternativa pode ser aplicada em diversos casos, como é o exemplo dos tecidos de origem natural: uma peça de roupa feita de algodão orgânico, pode ser reaproveitada para produzir novas peças ou acessórios que, por sua vez, podem ser reutilizados para produzir material de isolamento para a construção ou enchimento para almofadas ou pufes. O mesmo se aplica em materiais como a cortiça ou a madeira.


Dos nutrientes biológicos podem ser extraídas as matérias bioquímicas para a produção de biogás. Os nutrientes remanescentes podem ser devolvidos à biosfera de forma segura em forma de composto, regenerando assim os solos e a sua fertilidade e fechando o ciclo dos nutrientes (imagem 5).


os ciclos internos no diagrama de borboleta
Imagem 6: "O poder dos ciclos internos"
Em ambos os ciclos, sempre que possível devem ser favorecidas as alternativas mais próximas do utilizador/consumidor, pois quanto mais próximo deste, menores são os recursos, tempo, dinheiro e pessoas necessárias e maior a integridade e qualidade dos materiais é mantida e respeitada.

Adicionalmente, devem ser aplicadas medidas que prologuem o tempo que cada componente se mantém em cada ciclo, reduzindo assim a necessidade de produzir novos componentes, o que leva uma contínua redução da dependência de recursos “virgens” (imagem 6).


Gostaria de saber mais sobre os modelos de negócio que potenciam a transição para a Economia Circular? Junte-se a comunidade BeeCircular e receba gratuitamente o nosso e-book. 

3. Desenvolver sistemas eficazes que minimizam as externalidades negativas


Com a aplicação contínua, integrada e sistémica deste modelo pelas indústrias e as suas comunidades, consegue-se não só minimizar o volume de recursos que termina em aterro, mas também as externalidades negativas que são geradas com as atividades das indústrias.

Perdas sistêmicas e externalidades negativas no diagrama de borboleta
Imagem 7: "Sistemas Eficazes"
Durante muito tempo as organizações estiverem concentradas em fazer menos mal, focando-se na eficiência dos processos. O problema é que fazer menos mal é continuar a fazer mal, mas em menor proporção, situação que não resolve o problema e não contribui para a resolução dos atuais desafios ambientais que temos pela frente, devido ao sistema insustentável que foi aplicado nas últimas décadas.

O foco deve ser sim em fazer bem (eficácia) e em construir sistemas resilientes que servem efetivamente as necessidades das comunidades e contribuem para a sua evolução. Fazer bem passa por gerar valor para todas as partes envolvidas, incluindo as organizações, comunidades, seres vivos e meio ambiente (imagem 7).


Para complementar ainda mais os conhecimentos sobre este tema, recomendamos a leitura do nosso artigo:O Diagrama de Borboleta aplicado ao Setor Agroalimentar (Boas Práticas).

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Autora: Mariana Pinto e Costa (Cofundadora da BeeCircular)

Contacte-nos: hello@beecircular.org

Fontes:


(1) Ellen MacArthur Foundation, Towards The Circular Economy: Economic and business rationale for accelerated transition, EMF, London, 2013

(2) Ellen MacArthur Foundation, Towards The Circular Economy: Accelerating the scale-up across global supply chains, EMF, London, 2014

(3) Ellen MacArthur Foundation and McKinsey Center for Business and Environment, 2015, Growth within: A circular economy vision for a competitive Europe, EMF and McKinsey Center for Business and Environment, Isle of Wight.

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